sábado, 27 de agosto de 2016

ARTIGO - A TERRA SE DEFENDE

Por: Leonardo Boff - Teológo e Filósofo
Hoje é vastamente aceita, e entrou já nos manuais de ecologia mais recentes (cf.R.Barbault, Ecologia Geral, Vozes 2011), a ideia de que a Terra é viva. Primeiramente, ela foi proposta pelo geoquímico russo W.Vernadsky na década de 1920 e retomada, nos anos de 1970, com mais profundidade, por J.  Lovelock e, entre nós, por J. Lutzenberger, chamando-a de Gaia. Com isso se quer significar que a Terra é um gigantesco superorganismo que se autorregula, fazendo com que todos os seres se interconectem e cooperem entre si. Nada está à parte, pois tudo é expressão da vida de Gaia, inclusive as sociedades humanas, seus projetos culturais e suas formas de produção e consumo. Ao gerar o ser humano, consciente e livre, a própria Gaia se pôs em risco. Ele é chamado a viver em harmonia com ela, mas pode também romper o laço de pertença. Ela é tolerante, mas quando a ruptura se torna danosa para o todo, ela nos dá amargas lições.
Todos estão lamentando o baixo crescimento mundial, especialmente nos países centrais. As razões aduzidas são múltiplas. Mas para uma visão da ecologia radical, não se deveria excluir a interpretação de que tal fato resulte de uma reação da própria Terra face à excessiva exploração pelo sistema produtivista e consumista que tomou conta do mundo. Ele levou tão longe a agressão ao sistema-Terra a ponto que, como afirmam alguns cientistas, inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno: o ser humano como uma força geológica destrutiva, acelerando a sexta extinção em massa, que já está em curso há milênios. Gaia estaria se defendendo, debilitando as condições do arraigado mito de todas as sociedades atuais, inclusive o Brasil: o mito do crescimento, o maior possível, com consumo ilimitado.
 Já em 1972 o Clube de Roma se dava conta dos limites do crescimento, este não sendo mais suportável pela Terra. Ela precisa de um ano e meio para repor o que extraímos dela num ano. Portanto, o crescimento é hostil à vida e fere a resiliência da Mãe Terra. Mas não sabemos nem queremos interpretar os sinais que ela nos dá. Queremos continuar a crescer mais e mais e, consequentemente, a consumir à tripa forra. O relatório “Perspectivas Econômicas Mundiais” do FMI prevê para 2012 um crescimento mundial de 4,3%. Vale dizer, vamos tirar mais riquezas da Terra, desequilibrando-a, como mostra o aquecimento global.
A “Avaliação Sistêmica do Milênio”, realizada entre 2001 e 2005 pela ONU, ao constatar a degradação dos principais itens que sustentam a vida advertiu: ou mudamos de rota, ou pomos em risco o futuro de nossa civilização.
Mas importa reconhecer um dilema de difícil solução: há regiões do planeta que precisam crescer para atender demandas de pobres, obviamente cuidando da natureza e evitando a incorporação da cultura do consumismo; e há outras regiões, já super desenvolvidas, que precisam ser solidárias com as regiões pobres, controlar seu crescimento, tomar apenas o que é natural e renovável, restaurar o que devastaram e devolver mais do que retiraram, para que as futuras gerações também possam viver com dignidade, junto com a comunidade de vida.
A redução atual do crescimento representaria uma reação sábia da própria Terra que nos passa este recado: “parem com a ideia tresloucada de um crescimento ilimitado, pois ele é como um câncer que vai comendo todas as células sãs; busquem o desenvolvimento humano dos bens intangíveis, que, estes sim, podem crescer sem limites, como o amor, o cuidado, a solidariedade, a compaixão, a criação artística e espiritual”.
Não incorro em erro, se acredito que está havendo ouvidos atentos para essa mensagem e que faremos a travessia ansiada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário