sexta-feira, 20 de maio de 2016

CAICÓ: MEMÓRIAS DE NOSSA HISTÓRIA.

CRÔNICAS AOS MORTOS DA CATEDRAL DE SANT’ANA.

Por: Professor Antônio Neves.

Em Caicó é tempo de festa, a religiosidade do culto a padroeira do Seridó atrai multidões reafirmando os costumes das nossas tradições cristãs. Caicó, como toda e qualquer outra cidade deve ter a sua história preservada, contada e reconhecida por toda a sua gente.
Uma das principais referências da historicidade caicoense, com pretérito vínculo nas raízes de nossa fundação é a Catedral de Sant’Ana, ou como é conhecida - Igreja Matriz de Sant’Ana -, berço da cristandade seridoense e de muitos dos nossos antepassados que repousam no solo sagrado desse templo de orações. O Caicó cristão nasceu de uma prece à Sant’Ana, e dessa prece ergueu-se uma igreja, e dessa igreja nasceu um povo. Muitos dos que guiaram esse povo para a construção do que somos hoje, estão lá sepultados.
A história do Caicó sofre com o tempo e vem sendo esquecida ou confundida pela falta de preservação de seus aspectos mais peculiares que possam revelar para o presente os rastros do passado, construídos por homens e mulheres, sujeitos históricos que há seu tempo, dispuseram das ferramentas possíveis que ergueram as colunas de sustentação que asseguraram os laços existenciais de sua gente, mas que, pela falta de preservação dos elementos que a revele, podem está perdendo pouco-a-pouco a identidade e seus referenciais pela fragilidade de conservação de suas raízes.
A própria Matriz de Sant’Ana carrega estas icógnitas, quando não consegue preservar parte da história que ela contêm nos seus altares e paredes seculares. Para quem não conhece, a belíssima catedral guarda nos seus espaços sagrados, vultos da história caicoense, mas que depois de tantas reformas feitas sem maiores preocupações com seus personagens, estes ficaram esquecidos como o pó dos mortos que lá foram sepultados.
É revelador saber que os homens e mulheres de um passado já distante, fundadores dessa cidade, e outras personagens estão quase todos sepultados no interior da matriz-catedral, coisa que poucos sabem e nem se dão conta quando lá vão desbulhar seus terços e orações em pedidos de graças e louvores à mãe venerável. A própria igreja involuntariamente, cuidou de apagar os traços que revelavam este cenário de acolhimento aos homens que, ao morrer, escolhiam a igreja Matriz como berço de sua última morada e lá devem está até hoje, perdidos no chão da terra, no que para os vivos de agora, não sabemos onde repousam seus restos mortais.
Dom José Adelino Dantas, ex-bispo de Caicó, no seu livro – Homens e Fatos do Seridó Antigo (1959), nos mostra com angústia e apelo ao resgate da memória, o quanto é a Catedral de Sant’Ana de Caicó, rica na simbologia das imagens e acúmulo material da história desse lugar. Segundo ele, a paróquia de Sant’Ana do Seridó possui os mais antigos livros de óbitos da região, que consta o primeiro da data de 1788 o que revela que ali, naquela igreja dentro e fora do seu solo dormem o sono eterno das sepulturas, as figuras mais ilustres do Seridó antigo: sacerdotes, patriarcas, beatos e vultos da história sertaneja do Caicó, e entre outros, um de seus fundadores, o sargento Mor e fundador da freguesia Mater do memorável 26 de julho de 1748, e benfeitor fundador da Matriz, o senhor Manoel Fernandes Jorge, o qual dita seu termo de óbito do dia 18 de setembro de 1789, se fez pó sob os pés de Sant'Ana, abaixo do Altar-Mor da Matriz, (foto) e a quem toda a memória caicoense o relegou apenas o nome de uma escola da rede estadual de ensino.

ONDE DORME O PADRE BRITO GUERRA?
Outro vulto que repousa no sono eterno dentro da catedral é o padre Francisco de Brito Guerra, Vigário Colado da Freguesia de Sant’Ana do Seridó, Deputado e Senador do Império, e dono de outras destacadas atribuições que lhe deram legitimidade e merecimento. Infelizmente, se as cinzas do padre Guerra tenham permanecido na Capela-Mor por todo um século, é história que muitos poucos sabem contar por aqui. Depois de mais dois séculos, a tradicional Matriz de Sant’Ana passou por tantas transformações, que nem os mortos lá sepultados, restos de padres, leigos, até mesmo dos mais ilustres fundadores da cidade escaparam do descaso histórico e foram removidos  e postos em valas desconhecidas, o que, além de dificultar a preservação da identidade e da memória de cada um desses, condiciona-os ao esquecimento e ao enfraquecimento de nossas raízes seculares.

Lápide do Padre Guerra.
Na parte do final da catedral (à direita) por trás do Altar-Mor é possível encontrar esta placa (foto acima) com os seguintes dizeres: AQUI JAZEM OS RESTOS MORTAIS DO PADRE FRANCISCO DE BRITO GUERRA. HOMENAGEM DA DIOCESE DE CAICÓ NO CENTENÁRIO DE SUA MORTE. (26 - 11 – 1845) – (26 – 11 – 1945). No entanto, nada confirma que seja mesmo este o lugar correto onde possa está os restos mortais do padre senador. Além disso, nada mais identifica a importância funérea desse personagem de nossa história.

Com a atual e última reforma (2010), sob o frio do mármore ficaram escondidos de vez por todas, os resquícios de sarcófagos ou placas identificando que ali jazem restos mortais de alguém, destacando-se apenas duas placas alusivas a tais condições, onde repousa o Senador José Bernardo de Medeiros falecido em 1907, e outra (ver fotos abaixo) que destaca o padre Aderbal Leitão Vilar, falecido em 1985, ambas ao lado do túmulo do Monsenhor Walfredo Gurgel, onde em sua lápide a imagem do Cristo morto se faz guardião.
Únicas referências aos mortos da Catedral.

Lápide do Senador José Bernardo.

                                  Túmulo do Monsenhor Walfredo Gurgel

PENA DE MORTE NOS SERTÕES.
O Cônego e visitador dos sertões Manoel José Fernandes também dorme o sono dos justos na Catedral de Sant’Ana. Falecido no ano de 1858, este venerável padre mestre sertanejo foi testemunho e lavrou do próprio punho o termo de óbito dos matadores de sua prima, Ana Catarina da Anunciação, outra singular personagem de nossa história que está sepultada na Catedral de Sant’Ana, cujo lugar de sepultura virou fumaça no tempo. Em um acontecimento ímpar, esta senhora foi assinada aos 18 anos de idade pelos escravos de sua casa, a mando de seu marido, o senhor Francisco Galdino de Araújo, morte esta que ocasionou a condenação dos seus algozes a pena e execução de morte nos idos de 1843, primeira e única execução de pena capital acontecida nos torrões do Seridó. Os escravos que a mataram, Camilo Criolo e Cordulina Mulata tiveram seus corpos também sepultados na Igreja Matriz, fato este de notável concessão, uma vez que escravos não costumavam ser enterrados em igrejas, principalmente como as do porte da Catedral. Em que lugar repousam? Ninguém sabe.
MÃE PRETA – 135 NOS DE VIDA.
Outra personagem inusitada que jaz sepultada na catedral de Sant’Ana é  Mãe Preta, escrava de nome herdado de seus donos, e fundadores da cidade, chamava-se Maria Fernandes Jorge. Mãe Preta nascera nas eras recuadas nos anos de 1686 e morreu em 17 de dezembro de 1821 com 135 anos de idade. Nas suas palavras, Dom José Adelino Dantas diz que: “a Matriz de Sant’Ana guarda e vela até hoje seus restos... Como uma mãe  guardando outra mãe”. Em que lugar possa ser possível identificar sua sepultura, é desafio que só o olhar contemplativo da mãe Sant’Ana pode revelar.
UM RESGATE A MEMÓRIA.
Por fim, todos esses registros que aqui fazemos servem para provocar e trazer a tona uma reflexão do quão se perdeu aleatoriamente parte dos vestígios da nossa história e a parti deles como ficamos órfãos de informações que preserve a nossa memória. A catedral de Sant’Ana reuni um monumental espaço de informações que o tempo e alguns olhares pouco atenciosos cuidaram de apagar do roteiro dos dias atuais. No seu interior, não somente a fé de um povo se derrama nos fios das raízes de suas tradições, mas também a própria história que lá está sepultada e esquecida. Para estes que lá dormem o sono eterno sob o manto da padroeira, a morte não poderia ter sido um legado de esquecimento, ou indiferenças impostas ao derreter dos fatos por eles vividos e patrocinados, onde por anos a fio ergueram os alicerces desse templo e dessa cidade.
Segundo consta, até o início do século passado era possível identificar as cinzas do Visitador Manoel Fernandes, como as do Padre Brito Guerra, em suas respectivas urnas, mas uma mão que, insensível às tradições cristãs demoliu tudo e tudo sepultou na vala comum dos anônimos. (GUERRA, 2008, p.65-66).
Se hoje, depois de tamanhas e necessárias reformas, e de tantos homens e mulheres lá adormecidos pelos mistérios da eternidade, e desses não se encontrar na Catedral de Sant’Ana nem uma simples placa de alusão as suas moradas eternas, coisa comum ao mais simples túmulo, para apontar onde jaz sepultados os principais atores da história protagonizada no passado, conclamamos a necessidade de ressuscitar os mortos, se não pela ressureição da carne, mas pela edificação e resgate da luz da história.
“Salve Sant’Ana gloriosa, nosso amparo e nossa luz...”.
Fonte: DANTAS, José Adelino. Homens e Fatos do Seridó Antigo.  1 reedição. Sebo Vermelho - 2008.

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